“Brincar é o trabalho da criança.” – essa frase, atribuída a Maria Montessori, resume a essência da infância. Muito além do entretenimento, o brincar é um processo vital para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional. Ao brincar, a criança experimenta, imagina, cria hipóteses, negocia regras e se conecta com o outro e com o mundo.
Hoje, já não resta dúvida: brincar é aprendizagem ativa. Neurociência, psicologia e educação convergem para mostrar que o brincar é fundamental para preparar as crianças para a vida, cultivando as chamadas “habilidades para o século XXI” — criatividade, pensamento crítico, colaboração e comunicação.
O que a ciência diz sobre o brincar
Estudos em diferentes áreas vêm demonstrando os impactos profundos do brincar no desenvolvimento humano:
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Neurociência: O brincar ativa múltiplas áreas do cérebro, especialmente aquelas relacionadas à linguagem, memória, funções executivas e regulação emocional. Pesquisadores como Jaak Panksepp (2007) mostraram que o brincar social estimula o córtex pré-frontal, região crucial para planejamento e resolução de problemas.
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Psicologia: Jean Piaget já defendia que a criança constrói conhecimento brincando, avançando em estágios cognitivos ao manipular objetos e interagir com pares. Vygotsky reforçou que o faz de conta é essencial para o desenvolvimento da imaginação e da autorregulação, criando a chamada zona de desenvolvimento proximal.
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Educação e saúde: A American Academy of Pediatrics (2018) publicou um relatório afirmando que o brincar não estruturado deve ser visto como parte essencial da educação infantil, pois promove competências sociais e reduz níveis de estresse e ansiedade.
Essas evidências mostram que ao brincar, a criança aprende a aprender.
A visão do IB sobre o brincar
O IB Primary Years Programme (PYP) entende o brincar como estratégia pedagógica e forma de investigação. Para o IB:
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O brincar é experiência significativa, que permite à criança explorar conceitos, conexões e perspectivas.
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Ele é fonte de agência: a criança escolhe, decide, negocia e reflete sobre suas próprias aprendizagens.
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O brincar integra as áreas do conhecimento: ao montar uma cabana, a criança explora matemática (formas, medidas), linguagem (negociação, narrativas), ciências (força, equilíbrio) e artes (criação estética).
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É parte do Inquiry Cycle: cada brincadeira contém perguntas, hipóteses e descobertas, uma forma natural de investigação que conecta-se às Unidades de Indagação (UOI).
Assim, brincar não é apenas permitido no PYP, mas valorizado como caminho legítimo para o desenvolvimento de atributos do perfil IB: investigador, comunicador, equilibrado, solidário, íntegro, mente-aberta, pensador, informado, audaz e reflexivo.
Como estimular o brincar na escola: do maternal ao 5º ano
Na Educação Infantil (maternal ao 1º ano)
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Brincadeiras sensoriais: água, areia, argila, blocos, música e movimento.
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Faz de conta: encenar papéis sociais (médico, cozinheiro, família), explorando linguagem e imaginação.
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Exploração livre: permitir que as crianças criem narrativas próprias e reinventem materiais.
Anos iniciais do Fundamental (2º ao 3º ano)
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Jogos de regras simples: memória, dominó, pega-pega — desenvolvem autorregulação e cooperação.
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Construção coletiva: criar cidades em miniatura, inventar novos jogos ou dramatizações.
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Brincadeiras matemáticas: jogos de tabuleiro que envolvem contagem, estratégia e raciocínio lógico.
Anos finais do PYP (4º ao 5º ano)
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Jogos estratégicos: xadrez, jogos de cartas ou digitais que estimulam pensamento crítico.
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Projetos colaborativos: invenção de brinquedos sustentáveis, criação de peças de teatro, gincanas.
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Brincadeiras investigativas: transformar o pátio em laboratório vivo, investigar a natureza, simular profissões.
Estratégias práticas para professores
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Valorizar o brincar: não tratá-lo como pausa, mas como parte intencional do currículo.
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Planejar ambientes ricos: oferecer materiais abertos (caixas, tecidos, sucata criativa, blocos) que estimulem múltiplas formas de brincar.
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Dar tempo e espaço: reservar momentos de brincadeira livre e integrada ao planejamento.
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Observar e documentar: registrar como os alunos brincam é uma forma de avaliação autêntica no PYP.
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Conectar o brincar às UOIs: uma investigação sobre “sistemas de transporte”, por exemplo, pode incluir criar rotas no pátio ou encenar situações de viagem.
Conclusão
Brincar é o idioma universal da infância. É nesse espaço de imaginação e experiência que as crianças constroem não apenas conhecimento acadêmico, mas habilidades para a vida. O IB PYP reconhece esse valor e encoraja escolas a criarem uma cultura em que o brincar seja parte central do aprender.
Ao garantir tempo, espaço e intencionalidade para o brincar, educadores ajudam seus alunos a se tornarem pensadores críticos, criadores, colaboradores e cidadãos do mundo. Afinal, como disse Lev Vygotsky, “no brincar, a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, como se fosse maior do que é.”
Referências
American Academy of Pediatrics. (2018). The Power of Play: A Pediatric Role in Enhancing Development in Young Children. Pediatrics, 142(3), e20182058.
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IB (International Baccalaureate). (2018). The Learner in the Early Years: A developmental pathway. Cardiff: IB Publishing.
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Montessori, M. (1967). The Absorbent Mind. New York: Dell.
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Panksepp, J. (2007). Can play diminish ADHD and facilitate the construction of the social brain? Journal of the Canadian Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 16(2), 57–66.
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Piaget, J. (1962). Play, Dreams and Imitation in Childhood. New York: Norton.
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Vygotsky, L. S. (1978). Mind in Society: The Development of Higher Psychological Processes. Cambridge: Harvard University Press.
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Brookings Institution. (2024). Why play is serious work: Play-based learning for holistic development. Washington, DC.
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Child Mind Institute. (2025). How young children’s play promotes healthy development. Disponível em: https://childmind.org
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ResearchGate. (2025). The Role of Play in Children’s Development. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/389047290
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ResearchGate. (2025). The Importance of Play in Child Development and Health. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/391108287
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The Guardian. (2025). Children’s sedentary lifestyles linked to lack of play. Disponível em: https://www.theguardian.com/society/2025/jun/11

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